quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Xilopódios de umbu



Primeiro, obrigada a todos que arriscaram seus palpites. Yacon, batata-doce, gengibre, araruta, nabo, pastinaca, mandioca e mandioquinha? Nada disto. A única pessoa que matou de cara a charada é alguém que não lê meu blog e não tem acesso à internet. Perguntei a Eliana, a baiana que trabalha aqui em casa, se ela já tinha visto aquilo. Olhou de lado, desconfiada e soltou: Isto aí está com cara de uma raiz que a gente comia lá no sertão da Bahia. Deixe eu ver. Pois é o mesmo que ela. E é ela, a raiz do imbuzeiro (ou umbuzeiro), que a gente arrancava na roça seca e comia. E não tinha preparo?, perguntei. Que nada, o preparo era só descascar e meter na boca. Coisa boa, docinha, refrescante. Quando é novinha é comprida e tem a doçura de uma cenoura e textura de nabo. Quando envelhece, meio que pega na boca, meio que amarga, meio que é cheia de fibra. Mas só quando muito velha, pois mesmo grandona – ela vira uma bola como um melão e chega a sair fora da terra, mesmo assim dá pra comer e é boa. Aí precisa de uma picareta pra arrancar, sem machucar e matar a planta. Os antigos comiam pra matar a fome, como quem comia farinha de Bró (a farinha de uma palmeira usada em casos de extrema necessidade), mas a gente comia porque gostava mesmo, porque era gostosa. Assim, em conserva, nunca tinha visto, não. Doce também não. Na roça, era ela a nossa merenda e nosso refresco no meio da tarde com sol de rachar o coco”.


A tal raíz tem nome próprio. Se a gente já acha estranho chamar certos caules alimentícios de rizoma (os cilíndricos que crescem rentes ao solo, como o gengibre), tubérculos (os dilatados, com reserva de amido, como a batata, o inhame, o taro etc) ou bulbos (os de folhas modificadas e adensadas como a cebola e alho), agora tem mais um nome para guardar: xilopódio, um caule subterrâneo típico do Cerrado e da Caatinga, hipertrofiado para armazenar água. Mesmo nas secas e nas queimadas, a planta pode sobreviver graças a este engenhoso recurso da natureza. E guardemos mesmo este nome, xilopódio, xilopódio, xilopódio, pois não tardará e ele estará junto às raízes do Brasil nos restaurantes bacanas. Não só pelo potencial culinário - sabor agradável adocicado e crocante, mas também pelos requisitos gastronômicos atuais: produto ecosustentável, brasileiro e raro.
Recebi o produto da Coopercuc (Cooperativa Agropecuária Familiar de Canudos, Uauá e Curaçá), para quem fiz o texto de abertura do site. É esta mesma cooperativa, do noroeste da Bahia, região de Canudos, a mesma de Antônio Conselheiro e de mulheres guerreiras, que transforma umbu em iguarias. Estes produtos geram renda para alimentar as familias dos cooperados e já conquistaram franceses e austríacos. Agora, a pergunta que não quer calar: Por que vendem pra fora e os produtos não chegam a São Paulo ou ao Rio? Há uma coisa que se chama comércio justo, praticado pelos europeus, mas ignorado pela maioria dos comerciantes paulistas, cariocas, brasileiros enfim. De qualquer forma, os produtos estarão à venda no site da Cooperativa – que está indo para o Salone del Gusto e Terra Madre, do Slow Food, agora, neste mes, em Turim. O umbu da Coopercuc é uma das Fortalezas do Slow Food.




Paisagem da Caatinga - foto: Anna Paula Diniz


Em volta de um pé de umbuzeiro crescem novas plantas a partir das sementes que caem e conseguem germinar. O que acontece é que poucas destas plantas se desenvolvem pois são comidas pelas cabras que pastam nos campos. São justamente estes xilopódios jovens e atraentes para cabras, com cerca de 4 meses de vida, os ideais para o preparo de picles pois são mais adocicados e crocantes que aqueles das árvores adultas. Para garantir a sustentabilidade da exploração, a Coopercuc vem fazendo manejos com estas mudas de modo a devolver parte delas para a natureza e cultivar outras especialmente para o aproveitamento dos xilopódios. Há outras experiências com picles de xilopódio como em Petrolina – PE e tem sido uma forma de agregar valor a um produto de grande importância alimentar para certas áreas do nordeste - o fruto do umbu é uma ótima fonte de vitamina C, por exemplo -, mas de pouco interesse comercial. Para saber mais sobre isto, veja o blog http://www.fatosefotosdacaatinga.blogspot.com/

Antes que os europeus abocanhe
A Coopercuc está buscando apoio entre comerciantes de São Paulo e Rio de Janeiro que queiram abraçar a causa e apadrinhar o produto - proposta divulgada em primeira mão, aqui, agora, no Come-se. Como a iguaria ainda é raridade, a Cooperativa pretende vender a ínfima produção de 200 potes ao mês a compradores que pratiquem comércio justo. Poderia, assim, ter exclusividade na revenda do produto, além, é claro, de contribuir para a preservação da espécie e na manutenção da empreitada que complementa a renda de muitos pequenos agricultores da região e gera mais empregos.
Pra que serve
Pra beliscar, com cerveja. Pra dar um tchan num prato de comida qualquer. Pra dar crocância a saladas de folhas. Pra picar bem miudinho e usar no molho tártaro. Pra laminar e incrementar o recheio do sanduíche. Pra comer por comer.



A frutinha é sumarenta, ácida, doce e muito perfumada. E a geléia tem um incrível sabor amadeirado, lembrando vinho. Nome de batismo: Spondia tuberosa. Nome íntimo para a informalidade: umbu ou imbu, do tupi-guarani, , vem de ymb-u ou “árvore que dá de beber”. Uma planta adulta pode armazenar até 3 mil litros de água na estação das chuvas, para resistir aos longos períodos de secura.
Maracujá da Caatinga





Outras frutas exploradas pela Coopercuc: conheça outros produtos como o maracujá da caatinga no site da Coopercuc (ainda em construção, mas já tem imagens dos produtos). http://www.coopercuc.com.br/
Contato
Jussara Dantas de Souza
Tel. 55 (74) 9996 8795

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